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domingo, 29 de maio de 2011

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria!
Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.
De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.



Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.
Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”.
Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.



“Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.
Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”.
Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.
Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Rubem Alves – Educador e escritor.
Texto originalmente publicado no caderno “Sinapse”, jornal “Folha de S. Paulo”, em 26/10/2004.

domingo, 17 de outubro de 2010

É mais fácil descobrir o que gosta ou aprender a gostar do que faz?

Esse assunto surgiu hoje no café da manhã. Eu e uma amiga falávamos sobre escolher uma profissão.
Ela disse que não acha muito legal o jovem entrar na universidade muito cedo porque depois descobre que está no curso errado ou  depois que começa a exercer a profissão percebe que não gosta do que faz e que perdeu muito tempo na sua vida.
Eu acho isso bem relativo, pois vejo jovens que entram na universidade aos 18 anos, tem uma vida acadêmica bem estruturada, logo entra no mercado de trabalho e é bem sucedido. Em outros casos, tem aqueles que começam um curso, desistem, começam outro, e acontece o mesmo, e assim passam um tempão pulando de curso em curso e não encontram aquilo que gostam.
Eu concluo que as vezes é mais fácil a gente aprender a gostar do que faz, gostar do que tem, do que encontrar aquilo que gosta.
Pra onde formos vamos encontrar coisas boas e ruins. Em qualquer curso, em qualquer profissão. É melhor para nós, então, descobrir algo que tenha a ver com a gente sim, e depois se apegar aquilo que tem de bom no que escolhemos.
Citei pra minha amiga o meu exemplo.
Praticamente caí de para-quedas no curso de magistério.
No meu primeiro ano como professora, eu descobri que não era aquilo que eu queria pra minha vida. Nesse mesmo ano eu prestei vestibular para psicologia em pelo menos 3 universidades (UFMG, UFSJ e USP), mas não fiquei classificada entre as vagas em nenhuma delas.
No ano seguinte, voltei a morar em São Paulo e fui trabalhar numa creche. Essa experiência foi totalmente diferente da primeira e eu passei a gostar do meu trabalho.
Depois de um ano na creche, passei no concurso e vim dar aula onde estou hoje. Logo ingressei na universidade, no curso de Pedagogia... Fui melhorando a minha prática e me encontrando na profissão que escolhi.
Posso dizer que sou feliz, que amo o que faço.
Mas sei que me daria bem em diversas áreas. Basta que tenha algo que me interesse e que eu me proponha a fazer.
No meio da conversa com minha amiga, que por sinal também é professora (fez o curso de magistério junto comigo há 10 anos e dá aulas há 2 anos), ela disse que eu não gosto da minha profissão. Fiquei profundamente ofendida com tal afirmativa e não sei de onde ela tirou essa idéia. Talvez pelo fato de saber que não ando satisfeita e pretendo fazer um concurso público em outra área.
Gostaria de esclarecer então que se hoje eu penso em mudar de área, se estou insatisfeita, é com a desvalorização do magistério, com os baixos salários e com tanta coisa errada que eu vejo e prefiro não comentar... e não com profissão em si, com o meu trabalho ou com a minha atuação!

Voltando a pergunta inicial... É mais fácil encontrar o que gosta ou aprender a gostar do que faz?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dia dos professores

Hoje é nosso dia!

Na semana passada, meus alunos fizeram cartinhas que foram fixadas em um mural. Cada turma homenageando sua professora.
Eu sempre recebo cartinhas e bilhetes deles.
Ta aí algo que não tem preço no meu trabalho.
O carinho e admiração das crianças.


sábado, 8 de agosto de 2009

As aventuras honradas da Profissão de Professor

Como membro dessa classe de desbravadores, faço questão de tornar pública a fantástica vida dos professores!Leia com atenção os 7 (sete) motivos para você se tornar um Professor do Estado (do Paraná) e anote todos os detalhes!!!
O número 7 (sete) é um número de destaque, pois ele simboliza a perfeição: em sete dias Deus fez o mundo, sete são as cores do arco-íris, mas também sete é conta de mentiroso. O 7 aqui será utilizado em relação à educação e, mais especificamente, ao professor.
Ser professor é socializar o saber, é construir, juntamente com o discente, um conhecimento que valorize o meio em que atua. Por isso, destacar-se-ão 7 motivos para incentivar, você, leitor a ingressar nessa brilhante carreira!!!

1. Estude muito e leia bastante, principalmente a vida de São Francisco de Assis; lembre-se de que você também terá que fazer um voto eterno de pobreza.
Ou então a de madre Teresa de Calcutá....(pode ajudar a não perder a determinaçao)

2. Prepare-se para manejar certos instrumentos, como o giz e o apagador. Para tal, consultamos o personal stylist de Michael Jackson; você precisará de luva e máscara durante as aulas.Além de ter que fazer tratamento anti-alérgico para o resto da vida.

3. Manter-se em forma não será problema para você; com o corre-corre de uma escola para outra, você estará evitando o sedentarismo; com o salário que receberá, não precisará fazer regime; e caso precise complementar a cesta básica do mês, você ainda terá o privilégio de usar o TÍCKET DE 4 REAIS.Acredite se quiser: O estado não tem dinheiro...(uma pobreza!!!)

4. O educador é o único que pode acumular cargos: além de ministrar aulas em 3 ou 4 colégios diferentes, ainda sobra tempo para ser sacoleiro, levando para as escolas os últimos lançamentos do Paraguai, ou sendo importante representante de empresas como a AVON, a HERMES e a Tupeware!!! Ah, não custa aprender artesanato, fazer tricô, pano de prato, enfeite de Natal!

5. A formação continuada do professor é algo bastante importante e valorizada pelo governo. Com sorte, você será selecionado para ficar em um grande e luxuoso hotel como o IAT, desfrutar de ótimas instalações e saborear um cardápio variado; tudo isso com uma localização privilegiada e com vista para o ma...to.
Lá na PQP onde o vento faz a curva e judas perdeu as botas: Faxinal do Céu, ou será inferno? (No caso um inferno congelante.) Nunca fui, pois me contaram que primeiro que o guia é um índio e algumas partes do caminho são difíceis até pra camelo!! Além de porcos espinhos por toda parte!!!

6. O local de trabalho deve ser evidenciado: o educador, quase sempre, trabalha em escolas-modelo, cujo slogan é a fartura: 'farta' limpeza, 'farta' funcionário, 'farta' material didático, enfim, 'farta' tudo;Qualquer ser inteligente vai se perguntar: será incompetência ou uma invasão dos alienígenas amigos dos políticos? Quem sabe as duas coisas...7. Por fim, você desfrutará de um plano de saúde de ótima qualidade, cuja eficiência é demonstrada nos consultórios psiquiátricos repletos de professores que, ao completarem a idade e o tempo de serviço, já se encontram fatigados pelo trabalho, sugados pelo sistema e em pleno desmoronamento físico além do mental.Pior: nós é que temos que comprar a fluoxetina, o rivotril....(bem baratinhos). Sem esses você não irá sobreviver!!!!

7. Por fim, você desfrutará de um plano de saúde de ótima qualidade, cuja eficiência é demonstrada nos consultórios psiquiátricos repletos de professores que, ao completarem a idade e o tempo de serviço, já se encontram fatigados pelo trabalho, sugados pelo sistema e em pleno desmoronamento físico além do mental.
Pior: nós é que temos que comprar a fluoxetina, o rivotril....(bem baratinhos). Sem esses você não irá sobreviver!!!! Assim, depois de ler essas sete dicas, não perca a oportunidade e não desista: vá a um posto do estado e inscreva-se no concurso do ESTADO. O estado quer lhe receber de braços abertos. O nosso lema é: 'PAGUE PARA ENTRAR, REZE PARA SAIR'.
Aos que já se encontram desfrutando desse 'néctar' que é ser funcionário do estado na educação, nossos parabéns, você é persistente e capaz. Possivelmente, não terá recompensa aqui na terra, mas é certo que já tenha adquirido lugar privilegiado no céu.

( Uma paródia do texto original, mas desconheço a autoria)
POSTADO POR JOYCE SANCHOTENE

Quero lembrar que amo a minha profissão e faço o meu trabalho com muito amor. Mas não posso negar que o texto fala a realidade da vida de mtos professores funcionários de estados e municipios do nosso país.

Sou funcionária pública, efetiva na Prefeitura de Lavras - MG e sei do que a pessoa que escreveu esse texto está falando, pois é mais ou menos assim mesmo.
Para quem tiver vontade de ingressar nessa área, estão abertas as inscrições para concurso público neste municipio. Eu entrei no último (Há quase 6 anos) e vou concorrer a mais uma vaga, pois com apenas um cargo não é fácil sobreviver.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

professorAs

Que o exercício do magistério nas séries iniciais é predominantemente feminino é fato.
Esse assunto é abordado na dissertação de Mestrado de Carolina Alvarenga, e eu tive acesso ao texto através de uma amiga.

[...] EUA 1923
A senhorita concorda com as seguintes cláusulas:
1. Não se casar. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora se casar.
2. Não andar em companhia de homens.
3. Estar em casa entre as 8 horas da noite e as 6 horas da manhã, a menos que esteja assistindo a alguma função da escola.
4. Não ficar vagando pelo centro em sorveterias.
5. Não deixar a cidade em tempo algum sem a permissão do presidente do Conselho de Curadores.
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6. Não fumar cigarros. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora for encontrada fumando.
7. Não beber cerveja, vinho ou uísque. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora for encontrada bebendo cerveja, vinho ou uísque.
8. Não andar de carruagem ou automóvel com qualquer homem, exceto seu irmão ou pai.
9. Não vestir roupas demasiadamente coloridas.
10. Não tingir o cabelo.
11. Vestir, ao menos, duas combinações.
12. Não usar vestidos mais de duas polegadas acima dos tornozelos.
13. Conservar a sala de aula limpa.
a) varrer o chão da sala de aula ao menos uma vez por dia.
b) esfregar o chão da sala de aula ao menos uma vez por semana com água quente e sabão.
c) limpar o quadro-negro ao menos uma vez por dia.
d) acender a lareira às 7 horas da manhã de forma que a sala esteja quente às 8 horas quando as crianças chegarem.
14. Não usar pó no rosto, rímel ou pintar os lábios.

O código de conduta acima permite constatar ter o magistério se tornado um trabalho
feminino. ( Carolina Alvarenga)